quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Raisa e sua paisagem humana


Um dos singelos objetivos desse blog é de me dar a chance de falar um pouco sobre as impressões que tenho de trabalhos artísticos que capto aqui e acolá. Escolhi para começar com a produção de alguém que acompanho desde os primeiros idos anos de curso de Artes Plásticas, a Raisa, tão múltipla em formas de se expressar quanto seus apelidos carinhosos.

Ela é uma dessas moças que, apesar do passo firme, parece ser tão leve que uma brisinha a levaria para longe. A mesma que, com seu corpo comprido e andar rápido, tem muita pressa de chegar ao destino, para então relaxar, intensa e leve, entre aqueles que ela (sempre) acolhe com o coração. Tem olhos vivos, um riso fácil e conversar múltiplas e um desejo de contato, constante, com as pessoas e com o mundo. Tanto que seus dedos longos e de toque delicado sempre brincam de fazer cócegas e carinhos em crianças, amigos, crianças-amigas e amigos-criança.

Raisa raramente fala de tristezas. Mesmo quando o faz, tem algo de poético. Ela prefere olhar o outro, criar dele um terceiro, ainda sendo o mesmo. Seus desenhos e pinturas partem de pessoas reais ou não, tocadas por ela ou que, de alguma forma, seus olhos capturaram o suficiente para imprimí-los no papel. Então ela sonha-os e escreve em textos, poemas e cartas curtas e sensíveis, suas impressões do mundo, de paixões instantâneas, de amores longos, de amigos, abraços e pássaros.

Talvez ela tenha visto muitos pássaros indo na direção de seus sonhos de adolescência, vividos no interior do Ceará. Entre livros, folhas, música, primeiros amores e amigos, desabrochava uma menina que cora fácil, mas de certezas muito firmes (como os seus passos), que a deixaram tão livre de limites quanto um passarinho. E é assim que ela brinca com linhas, cores, corpos e rostos, tão coloridos e variados quantas são as paisagens que Quixadá oferece.

Olhando para seus traços no papel, quase vejo os dedos longos formando bocas, bochechas, pescoços e cabelos como alguém que acaricia o ser amado. Dessa forma, ela os desbrava, os cartografa e sitia uma nova paisagem humana nos limites do papel, mas um papel que também se rasga e dá espaço para os vazios do que ainda se compreenderá. Suas cores só demonstram a intensidade de um espírito que vai ser sempre jovem e que faz, mesmo da tristeza, uma ode à vida. Talvez eles nunca sejam tão intensamente vivos quanto da forma que ela os guarda. Às vezes, acho que eles tem até coração trêmulo.


Para mim, que nasci e cresci vendo o mundo um tanto quanto cinza e triste, olhar para a produção da Raisa, cada vez mais intensa, cada vez mais certa de seu caminho, sem medo de ser fiel a si mesma, lembra a grata teimosia das flores e das plantas da Serra do Estévão. Mesmo depois da mais castigante seca, elas voltam, tão lindas e certas que nunca erram a combinação perfeita de vida e cor. As paisagens humanas de Raisa lembram a pessoas como eu, ser um tanto quanto amargurado pelas coisas do mundo, que o homem ainda guarda em si um universo belo. Basta ter coração aberto para ver.


Para ver mais da produção dela, temos o blog e o flickr. Aproveitem a vista.

3 comentários:

  1. a ruthinha resolve fazer uma coisa dessas, assim, sem mais nem menos, e me deixa aqui, há quilômetros dela, boba, sem saber o que dizer, só abraços e carinhos e lembranças...

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  2. emocionei. nossa.. mesmo. saudade e vontade de abraças as duas. :*

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